A cidade de Santana da Boa Vista ganha uma nova obra e um novo horizonte no mapa literário do Rio Grande do Sul: o livro "Histórias extraordinárias das Serras do sudeste" do escritor Cezário Urruth Rodrigues. O livro traz contos de realismo fantástico onde figuram caracteres e paisagens típicas da região. Curandeiras, charlatões, missionários, guerreiros, dentre outros, povoam esses contos recheados de mistérios e surpresas. Há no livro também a épica luta de Jacinto Inácio com a "tigra", luta essa que marca a fundação do povoado de Santana da Boa Vista. Essa história é baseada no relato de um dos bisnetos de um empregado de Jacinto Inácio, relato esse feito ao autor nos anos 50. Alguns personagens ou elementos aparecem de forma original em mais de um conto, como a famosa vela do Virgílio e o Dom Pafúncio, dono de um bar. Eis um livro original, de uma simplicidade incrível e de uma profundidade imensa que enobrece não só a Literatura rio-grandense, como também a própria Literatura Brasileira. Um livro que vale à pena ser lido por todos. Não é comercializado mas exemplares já podem ser encontrados em diversas bibliotecas do interior, entre as quais posso citar as municipais de Tapejara, Faxinal do Soturno, Agudo, Candelária. Em breve estará disponível em todos os rincões do Rio Grande e, quem sabe, disponível online.
terça-feira, 17 de dezembro de 2019
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
A festa da Democracia
Dia de
manifestação contra os governos Temer-Sartori. Uma
manifestação plural, democrática, repleta de
organizações sindicais, professores, estudantes,
pessoas de todas as esferas sociais unidas por um só clamor: o
fim dos governos corruptos e propinocráticos.
Era uma
sexta-feira, no centro de Porto Alegre, na “esquina democrática”
- não poderia haver local mais adequado. Cheguei e integrei-me
à multidão. No carro de som, discursos e palavras de
ordem, jograis e alternância de palestrantes. Na multidão,
caras, rostos, formas e cores variadas, embora fosse predominante o
vermelho. Levei minha flâmula auriverde do Brasil Imperial,
atrelada a um mastro improvisado na bicicleta. Ganhei adesivos de
Fora Sartori e Fora Temer. Assisti às falas enquanto algumas
pessoas me abordavam perguntando o que era aquela bandeira, o que
significava. Encontrei dois monarquistas convictos, um deles
professor de história, o outro, conhecedor do parlamentarismo
monárquico desde Cunha Bueno e do plebiscito de 1993.
Parecia tudo belo até
que partimos em caminhada, descendo a av. Borges em direção
à av. Júlio de Castilhos. No caminho fui abordado por
um militante que mostrou seu horror à bandeira que eu levava,
ameaçou-me e fez intimações severas a que eu me
retirasse dali. Mas aquela não era uma manifestação
democrática, sem uma liderança central, uma
manifestação plural? Afastei-me para outro lado da
passeata. Em vão. O indivíduo, com óculos
espelhado estiloso e armação dourada, cabelo crespo em
estilo semi-blackpower (ou antes um blackpower em crescimento), refez
suas ameaças, e pediu ajuda a militantes mascarados.
Retirei-me para a parte traseira da multidão, e enquanto
caminhava em sentido contrário aos manifestantes, eis que
senti um puxão. Era um mascarado que agarrava o pavilhão
imperial enquanto outro derrubava a bicicleta lançando-me ao
chão. E ali, no solo desta cidade, certo de um linchamento
sumário, recebi mais uma chuva de ameaças e impropérios
do militante (que muito se assemelhava ao personagem “Patropi”) e
seus comparsas mascarados. Quanto a mim, apenas perguntava-lhes por
que me agrediam e que democracia era aquela que eles defendiam e que
usava a violência ao invés da razão. Por sorte
algumas almas benévolas e menos afetadas pelo fanatismo vieram
em meu socorro e uma delas me disse “-Sai daqui, estamos te
protegendo”. Rendo aqui gratidão a esses anjos da razão
que nadavam num mar de fanatismo.
Assim
fui expulso daquela manifestação em que se pregava a
democracia, a pluralidade e a razão por pessoas que aplicavam
a violência a unidade ideológica e o fanatismo como seus
elementos de persuasão, uma persuasão que, na falta de
argumentos, precisa elevar a voz para impor suas ideias. Concluí
que muitos dos que pregam a democracia não nenhum pouco
democráticos. Que Deus tenha misericórdia do nosso
Brasil.
Um brasileiro
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
Carta aberta aos jornalistas e à imprensa
Amigo(a)
Jornalista,
A crise
política a que assistimos não é a crise de um
partido ou governo, é a crise do regime de república
presidencialista, importado por um grupo de militares descontentes
que, seduzidos por civis ávidos de poder, depuseram e baniram
o Imperador D. Pedro II e sua família.
O
sistema republicano, manipulável e manipulado, faz a alegria
do empresariado estrangeiro, o qual financia, elege e derruba
“governantes” sempre de acordo com seus interesses. Os políticos
legislam em causa própria visando apenas à próxima
eleição. Enquanto isso, o povo, os trabalhadores e os
jornalistas penam num país saqueado pela corrupção.
Mas o
Brasil nem sempre foi assim: quando éramos uma Monarquia
Parlamentarista tínhamos o Poder Moderador, exercido por D.
Pedro II, que podia demitir maus governantes e fiscalizava os
políticos. Foi famoso o “lápis fatídico”
com o qual o Imperador anotava em seu caderninho o nome dos
corruptos, que ficavam impedidos de assumir cargos públicos.
Nossa pátria tinha impostos sob controle, inflação
controlada, moeda forte, reputação internacional e,
acima de tudo, liberdade de imprensa.
O Brasil
caminhava para um futuro brilhante: com a Princesa Isabel teríamos
uma reforma agrária com a concessão de terras aos
negros alforriados, teríamos o voto feminino ainda no século
XIX, seríamos a vanguarda das nações. Mas um
urubu pousou na nossa sorte: com o golpe militar de 15 de novembro de
1889 veio a imunidade parlamentar, veio a chacina de Canudos, veio o
caudilhismo, 3 golpes militares, 6 constituições,
instabilidade, inflação e o descaramento dos políticos
que nos escandaliza hoje. E apenas um mês e meio após a
derrubada da Monarquia veio a chamada “Lei da rolha” em 23 de
dezembro de 1889, que plantou no Brasil a censura, palavra que a
imprensa desconhecia no regime monárquico. Um dos pilares da
democracia é a liberdade de imprensa, e esta nunca apanhou
tanto e se viu tão ameaçada como nesses 126 anos de
República.
Peço
ao(à) amigo(a) jornalista que neste natal, ao estourar uma
champanhe ou espumante, lembre-se que aquela rolha serviu de nome ao
primeiro atentado contra esses profissionais da defesa da liberdade
de opinião, informação e pensamento. Lembre-se
que com apenas um mês de vida a República já
atentou contra sua profissão e até hoje, dia sim dia
não, tenta amordaçá-la. Mas lembre-se, acima de
tudo, que há um braço forte para defendê-lo(a):
está ali em São Paulo, é o bisneto da Princesa
Isabel, Dom Luiz Gastão de Orleans e Bragança, nosso
imperador de jure. Convido o(a) amigo(a) a aclamá-lo, para que
ele tire do bolso o lápis fatídico de seu tetravô
e, com esse lápis, risque a corrupção de nossa
política para que você, com sua caneta, possa escrever
um novo futuro para o Brasil, cheio de boas notícias. Feliz
Natal.
Acesse o
site oficial da Família Imperial Brasileira:
Junte-se
ao movimento monárquico:
Porto
Alegre, 15 de dezembro de 2015
Alessandro
Pereira Rodrigues
Servidor
público, Monarquista.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
O
Brasil precisa restaurar a Monarquia Parlamentar, urgentemente!!!
Muitas pessoas acham a monarquia um regime ultrapassado, dispendioso e antidemocrático. Acham, pois não buscam informações e permanecem uma vida inteira mergulhados no “achismo”. Por isso exponho alguns dados relevantes para reflexão.
Dentre
os 14 países com mais desenvolvidos do mundo, 8 são
monarquias (Noruega, Austrália, Holanda, Nova Zelândia,
Canadá, Dinamarca, Suécia, Reino Unido) enquanto que os
14 países mais pobres do mundo são todos repúblicas1.
Não é verdade que as monarquias são caras. Cito
o exemplo da monarquia no Reino Unido: o orçamento para a
família real britânica em 2010 foi de £ 40
milhões, mas a monarquia britânica gerou um lucro de £
200 milhões para o Reino Unido, oriundo da Crown Estate,
entidade que administra as propriedades monárquicas, que geram
receita por várias fontes, dentre elas o turismo2.
A monarquia favorece a democracia, vale lembrar que um sistema de
monarquia parlamentarista é bicameral, ou seja, possui um
senado e uma câmara de deputados. Foi o sistema que vigorou no
Brasil entre 1822 e 1889, com eleições regulares,
alternância de partidos, sem nenhum golpe ou estado de sítio.
Certamente alguém dirá: “se há deputados, há
corrupção.”. Ocorre que no caso do Brasil, com o
quarto poder, chamado Poder Moderador, exercido pelo monarca, sempre
que a câmara ou senado se mostrasse corrupta, ela podia ser
dissolvida pelo soberano que imediatamente convocava novas eleições.
O Brasil
nasceu pela tradição monárquica, primeiro com a
Coroa Portuguesa, desde 1500 até o século XIX. Após
a independência, proclamada por D.Pedro I em 7 de setembro de
1822, a tradição monárquica foi mantida pelos
descendentes de D.João VI. A própria ata de declaração
da independência foi assinada no senado pela Imperatriz
Leopoldina, que regia o Brasil durante as viagens de D. Pedro I pelo
interior do Brasil. Efetivamente, nossa independência foi ato
da Imperatriz Leopoldina, nossa primeira governante.
Com a
abdicação de D.Pedro I, o trono passou a seu filho,
D.Pedro II, certamente o maior estadista que já tivemos.
Durante seu reinado, o Brasil consolidou sua unidade política,
ampliou suas receitas pela agricultura de exportação,
abriu estradas, ferrovias. Em 1876 numa feira na Filadélfia,
EUA, Graham Bell apresentava ao mundo seu invento, o telefone, e já
em 1877 era implantada a primeira linha telefônica no Rio de
Janeiro.
D. Pedro
II era respeitado e admirado por pessoas como Graham Bell, Charles
Darwin, Victor Hugo, Friedrich Nietzsche, além de ser amigo de
Richard Wagner, Luis Pasteur, Jean Martin Charcot, Henri Wadsworth
Longfellow.
Tamanho
foi o prestígio do Brasil monárquico que nosso país
atuou diversas vezes como árbitro em litígios
internacionais em que eram parte EUA, França, Alemanha, dentre
outras nações.
Também
a questão da escravidão foi resolvida com grande
prudência: não podia o governo aboli-la de uma só
vez pois isso resultaria em confronto direto com a elite cafeicultora
e açucareira, desencadeando, possívelmente uma guerra civil, como ocorreu nos EUA durante a Guerra da Secessão. Por isso o império brasileiro tratou da
abolição por etapas: com a lei Eusébio de
Queiroz (1850), Lei do ventre livre (1871), Lei dos sexagenários
(1885) e por fim, a abolição em 1888, assinada pela
Princesa Isabel que governou o Brasil enquanto D. Pedro II estava
doente.
Um ano
após o último golpe contra a escravidão, que
descontentou os cafeicultores, foi a vez destes darem um golpe na
monarquia, aproveitando-se de dissidências militares, depondo
e banindo o nosso melhor governante que partiu para o exílio
na Europa. Na partida do imperador deposto, o golpista Marechal
Deodoro ofereceu-lhe uma indenização milionária,
que D. Pedro II prontamente recusou pois o dinheiro não era do
Marechal mas do povo brasileiro. Foi o maior exemplo de honestidade,
de moralidade, de probidade, virtudes das quais estamos tão
carentes nos dias de hoje.
Após
o golpe instaurou-se a República, que não melhorou a
vida do povo, provocou mais mortes do que a independência, sem
falar no genocídio de Canudos. Em 126 anos de República
tivemos seis constituições, três golpes
militares, fomos vítimas de opressão, repressão,
com incompetentes e oportunistas ocupando o cargo de presidente. Para
se manter como forma de governo, a república proibiu até
1988 que se defendesse a monarquia. Hoje vemos um escândalo de
corrupção atrás de outro. E infelizmente não
temos mais um imperador para dissolver uma câmara corrupta e
convocar novas eleições. Somos obrigados a suportar os
corruptos até o fim de seus mandatos.
O que
pouca gente sabe, pois não nos é ensinado nas escolas,
é que o Brasil possui uma Família Imperial, legítima
herdeira do trono de D. Pedro II, composta por seus descendentes.
Pela linha de sucessão temos os trinetos de D.Pedro II são
D. Luiz Gastão de Orleans e Bragança (1º
sucessor), D. Bertrand de Orleans e Bragança (2º
sucessor), D. Antônio João de Orleans e Bragança
(3º sucessor), e os tetranetos de D.Pedro II, D. Rafael Antônio
Maria de Orleans e Bragança (4º sucessor) e D Maria
Gabriela Fernanda de Orleans e Bragança (5ª sucessora).
Não
podemos mais ser governados por qualquer um, por políticos
aventureiros e oportunistas financiados por empresas, pois, quando
eleitos, governam não para o povo mas para seus financiadores.
Precisamos de um monarca, herdeiro da tradição de D.
Pedro II, preparado desde a infância para governar. Precisamos
de um monarca que não é financiado por empresas e por
isso é isento, podendo governar para o povo. O monarca pensa
nas próximas gerações, o presidente pensa nas
próximas eleições.
Por isso
precisamos retomar o desenvolvimento de nosso Brasil em bases
sólidas, acabando com as mazelas da corrupção e
dos governantes oportunistas e aventureiros. Precisamos restaurar a
monarquia parlamentarista no Brasil, colocando nossa família
imperial novamente na chefia da nação. São os
trinetos e tetranetos de D.Pedro II nossa última reserva moral
para dar ao Brasil e a todos nos a grandeza que tanto sonhamos.
Junte-se
a nós conhecendo, estudando e divulgando a causa monárquica.
Merecemos, nós e as próximas gerações um
Brasil digno, honesto e virtuoso. Viva o Brasil! Viva a Monarquia!
Endereços
em defesa do Brasil e da causa monárquica:
1 https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_pa%C3%ADses_por_%C3%8Dndice_de_Desenvolvimento_Humano#Lista_completa_dos_pa.C3.ADses
(acesso em 16/06/2015)
2 http://www.contasabertas.com.br/website/arquivos/1395
(acesso em 16/06/2015)
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
ENDÓFORA
A endófora é a referência que fazemos a elementos internos do texto. Pode assumir duas formas: a anáfora (referência a algo que já dissemos) e a catáfora (referência a algo que ainda vamos dizer). Na dúvida entre as formas esse/essa, este/esta, lembre-se da ordem alfabética: o "s" vem antes do "t". Assim, se procurarmos no dicionário, as formas essa/esse, vêm antes de esta/este. Duplinhas como essa/esse apontam para cima, para algo que já foi dito no texto, fazem referências anafóricas. Duplinhas como esta/este apontam para baixo, para algo que vamos dizer no texto, são referências catafóricas. E para eliminar todas as dúvidas, basta ler as postagens sobre ANÁFORA e CATÁFORA.
(Dica do professor Alessandro Rodrigues, licenciado em Letras -
Português e Latim - pela UFRGS, Licenciando em Letras - Português e
Grego - pela UFRGS, mestrando em Literatura Portuguesa e Literaturas
Luso-africanas pela UFRGS)
Jussinara
Jogo suspiros aos ventos uivantes,
Um após outro, olhando as flores,
Sofro de amor, a maior dentre as dores,
Sonho e padeço em todos instantes.
Ilha tão bela nos mares distantes,
Noite tão doce em suaves frescores,
Anjo qu'incita os mais belos amores,
Rio que afoga a todos os amantes,
Ah se eu pudesse retê-la em meus braços,
Ter os seus beijos, pra sempre e sem fim,
Essa que corta meu peito em pedaços,
Ah se soubesse qu'eu sofro assim,
Mas outro já sorve seus doces abraços!
Olhos qu'eu amo e não olham p'ra mim!
Alessandro Pereira Rodrigues, julho, 20**
CATÁFORA
A catáfora é a referência que fazemos a algo que ainda vamos dizer no texto. O trecho abaixo, do livro Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, ilustra a referência catafórica:
"[...] Começou então a fazer a cada um um sermão, em que se mostrava muito sentido por ter sido obrigado a chegar àquele excesso, e que terminava sempre por esta pergunta:
- Então você em que se ocupa? [...]"
A palavra "esta" faz referência à palavra pergunta, e a palavra "pergunta", por sua vez, nos remete a uma indagação que ainda será feita no texto. Outras formas muito comuns para referências catafóricas são as palavras este, esta, isto, neste, nesta, nisto, e seus plurais. Os enunciados abaixo exemplificam o uso da catáfora:
a) Após ler as regras de crase, Jõao chegou a esta conclusão: "É um assunto complicado".
b) Nosso problema é este: a desigualdade social.
c) João andou léguas pensando nisto: se ganhar na loteria, nunca mais trabalhará.
Nos três enunciados acima, as palavras em negrito apontam para algo que será dito no texto, por isso, são referências catafóricas.
ATENÇÃO
Além de apontar para baixo, no texto, a catáfora também pode apontar para a esquerda, para o trecho ou ideia imediatamente anterior, como ilustra o este exemplo de Simões Lopes Neto, no conto "No manantial":
"[...]
Mas, perto da pomba andava rondando o gavião. Na restinguinha, obra de um quarto de légua pra lá do Mariano, morava um tal de Chico Triste, que tinha filhos como rato, e o mais veho era já homem feito.
Este, que pro caso chamava-se Chicão, andava mui enrabichado pela Maria Altina. [...]"
A palavra "este", embora seja utilizada em referências catafóricas, aqui aponta para trás, não para algo que está muito acima no texto (o que representaria uma anáfora), mas para o que está imediatamente atrás, aqui, o trecho sublinhado. O uso da forma "esse" não seria de todo equivocado, mas traria uma certa imprecisão ao texto, pois poderia apontar tanto para o trecho sublinhado como para Chico Triste, Mariano ou mesmo para o gavião. O uso do vocábulo "este" traz uma precisão incrível ao texto, pois delimita exatamente sobre o que se está falando.
O CONTEXTO SITUACIONAL
Vejamos este trecho do livro Canudos, de Euclides da Cunha:
"[...] Canudos não se rendeu
Fechemos este livro. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.
Forremo-nos à tarefa de descrever seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la, vaciante e sem brilhos. [...]"
A palavra "este" refere-se ao próprio livro Os sertões. A palavra "esta" pode ser interpretada como uma referência dupla, tanto à página que Euclides escrevia e que encerrava seu livro, como também à "página da história", o desfecho da guerra de Canudos, que se descortinava ao olhos do jornalista.
Outro exemplo:
Em 1968 a ditadura baixou o AI5. Este, dissolvia o congresso, eliminava as eleições e aumentava a repressão. Nesse ano ocorreram muitos protestos.
A palavra "este" refere-se ao elemento imediatamente anterior, ou seja, ao AI5. Já a palavra "nesse" refere-se ao ano de 1968, sendo um bom exemplo de anáfora, pois aponta para algo que está bem antes no texto.
Os últimos exemplos:
Os alunos estudaram muito para a prova do ENEM neste ano.
("neste" refere-se ao ano em que estamos. Para utilizar a forma anafórica "nesse", teríamos que especificar o ano de que estamos falando - e que não seja o ano corrente)
Nesta aula, estuda-se muito.
("Nesta" refere-se à aula em que estamos)
(Dica do professor Alessandro Rodrigues, licenciado em Letras -
Português e Latim - pela UFRGS, Licenciando em Letras - Português e
Grego - pela UFRGS, mestrando em Literatura Portuguesa e Literaturas
Luso-africanas pela UFRGS)
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
ANÁFORA
A anáfora é a referência que fazemos a algo que já foi dito no texto. Vamos ver um exemplo no texto do conto O Alienista, de Machado de Assis:
"[...] - A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único. Itaguaí é o meu universo.
Dito isso, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência [...]"
A palavra "isso" refere-se a algo que já foi dito no texto. Outras formas anafórias mais comuns são: esse, essa, nesse, nessa, etc.
O texto abaixo ilustra outras formas de referência anafórica:
Havia um rei que tinha uma filha. Era ele não só muito impertinente, mas desconfiado. Logo que a criança nasceu, meteu-a numa torre onde ela permanecia trancada. Contudo, permitia-lhe sair ao jardim, passear pelo terraço, mas não consentia que [-] frequentasse reuniões ou [-] fizesse visitas.
Todos os termos em negrito referem-se ao antecedente referencial "uma filha". O encadeamento de referentes é o seguinte:
uma filha - Referente antecedente
a criança - Anáfora nominal
a - Anáfora pronominal
ela - Anáfora pronominal
-lhe - Anáfora pronominal
[-] - Anáfora através da elipse
[-] - Anáfora através da elipse
(Dica do professor Alessandro Rodrigues, licenciado em Letras - Português e Latim - pela UFRGS, Licenciando em Letras - Português e Grego - pela UFRGS, mestrando em Literatura Portuguesa e Literaturas Luso-africanas pela UFRGS)
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Alone Sozinho
As others were; I have not seen Como os outros foram; eu não vi outrora
As others saw; I could not bring Como os outros viram; e eu não pude ainda,
My passions from a common spring. colher minhas paixões numa primavera linda.
From the same source I have not taken Da mesma fonte eu não pude retirar,
My sorrow; I could not awaken Minha dor; Eu não pude despertar
My heart to joy at the same tone; Meu coração para a alegria pelo mesmo caminho;
And all I loved, I loved alone. E tudo o que eu amei, eu amei sozinho.
Then- in my childhood, in the dawn Então, na minha infância, na alvorada
Of a most stormy life- was drawn De uma vida turbulenta foi pintada
From every depth of good and ill com cada nuance do mal e do bem
The mystery which binds me still: O mistério que ainda hoje me mantém.
From the torrent, or the fountain, Desde a torrente ou da fonte,
From the red cliff of the mountain, Desde o rubro pico de um monte,
From the sun that round me rolled A partir do sol que se eleva e circudeia
In its autumn tint of gold, Em sua áurea tinta outonal que incendeia,
From the lightning in the sky A partir do raio no céu azulado
As it passed me flying by, Enquanto ele passa voando ao meu lado,
From the thunder and the storm, A partir do trovão e do temporal
And the cloud that took the form E da nuvem que se transforma, afinal,
(When the rest of Heaven was blue) (Enquanto o restante do céu resplandecia)
Of a demon in my view. Num demônio que ao meu olhar aparecia.
Edgar Allan Poe, traduzido por Alessandro Pereira Rodrigues, aos 25 de Outubro de 2013
A criação do mundo
Antes do mar e das terras e do céu que cobre a todos, a natureza tinha um só rosto em toda a terra, com o nome de Caos, rude e indigesta massa, consistente apenas num peso inerte: as sementes das coisas ainda não estavam separadas. Até aqui, nehum Titã provia luz ao mundo, nem Febo renovava com suas pontas novas crecendo, nem a terra - livre do seu peso - pendia no ar circunfuso, nem Anfitrite estendia com seu longo braço pelo orbe. De tal modo estavam o céu, o mar e a terra, que esta era instável, esse inavegável, aquele carecia de luz: nada mantinha sua forma. Um obstava ao outro pois, em um só corpo, o frio lutava com o quente, o úmido com o seco, o mole com o duro, o leve com o pesado.
Deus a isso deu uma natureza melhor, pois separou das terras o céu e o mar. E segregou do ar espesso as chuvas. No lugar do desacordo, uniu com a paz da concórdia. Colocou o fogo sem pesso no alto do céu e fez para si um lugar nas alturas. Proximo a ele está o ar e, mais denso do que este, a terra, que atrai os elementos maiores e foi pressionada pelo seu peso. A umidade flui ao redor da sólida terra oprimindo-a.
Quando as coisas estavam assim dispostas (quem quer que tenha sido aquele deus), cortou o grão-corpo e juntou a terra partida em membros, inicialmente, para que nenhuma parte do todo fosse desigual. Aglomerou a forma num grande orbe e fez então que o mar se esparzisse, insuflou os rápidos ventos circundando os litorais de ambas as terras. Adicionou fontes, pântanos imensos, lagos e rios, os quais, por declives e em diversos lugares, cinge uma oblíqua margem, sendo às vezes engolidos por elas. Uma parte dos rios chega ao mar, outra parte é recebida pelos ampos. Outra ainda, com águas mais livres, bate nos litorais ao invés de margens. Mandou estender campos, cavar vales, enramar selvas, erguer montes rochosos.
Assim como duas zonas cortam o céu, à direita e à esquerda, uma quinta é mais ardente. Assim a providência dividiu em igual número o globo. Muitas praias povoam a terra, das quais uma está no meio: não é habitável por causa do calor. Alta neve cobre duas. E entre uma e outra, colocou uma zona moderada, dando uma flama misturada ao frio. Fica iminente a essas partes o ar que é mais leve que a água e a terra, mas um pouco mais pesado que o fogo. Mandou ficar aí as névoas, as nuvens e os trovões que aterrorizam as mentes humanas, além dos ventos e dos raios.
Tradução do livro As Metamorfoses, de Ovídio, Livro I, versos 5-51, por Alessandro Pereira Rodrigues (Graduado em Letras - Português/Latim pela UFRGS e graduando em Letras Português/Grego pela mesma universidade).
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Orfeu desce ao Tártaro
Daí pelos ares, Himeneu, vestido em trajes amarelos, voa para a Cicônia, onde alguém chama-se Orfeu.
Himeneu esteve presente, mas não levou nem palavras solenes, nem um rosto alegre, nem um bom presságio. Até a tocha que segurava tinha uma fumaça lacrimosa e nenhum sopro reavivava as chamas.
A saída foi mais grave do que o presságio: a jovem noiva, enquanto vagava pelas ervas, acompanhada pelas Náiades, morreu ao receber no calcanhar o dente de uma serpente.
Depois que o poeta Orfeu chorou aos céus o quanto pode, ousou descer às sombras, à porta do tenebroso rio Estíge e, por povos desconhecidos e imagens reunidas no sepulcro, vai até Perséfone, a rainha que tem o domínio das sombras. E, tocando as cordas ao ritmo das palavras, disse assim:
Ó deuses postos sob a terra, até os quais caímos - quem quer que seja mortal! Se é permitido deixar as mentiras de lado e permitis falar a verdade: não vim aqui para ver o Tártaro opaco, nem pelas vilosidades de Medusa, nem para vencer a tríplice garganta do monstro. A causa da jornada é a esposa, à qual uma cobra pisoteada infundiu veneno, tolhendo-lhe os anos vindouros. Nem nego que tentei suportar, mas venceu o Amor. Este deus é bem conhecido lá em cima, duvido que não o seja aqui. Se não é mentira a história do antigo rapto, o Amor também juntou-vos.
Eu, por estes lugares cheios de medo, por este caos imenso e vasto reino de silêncio, peço por Eurydice, retecei-lhe os fados. Tudo vos devemos, com uma certa demora, mais cedo ou mais tarde caminhamos para uma só casa, todos iremos para cá. Esta é a última morada. Vós tendes o reino eterno do gênero humano. Ela também, quando madura, perfizer os justos anos, será vossa por direito. Peço pelo uso apenas. E se os fados negam o pedido pela esposa, não quereis devolver-me: alegrai-vos com os dois.
Dizendo tais coisas, acompanhado pela lira, choravam as almas sem sangue: Tântalo não buscou a onda fugaz; a roda de Íxion parou; os abutres não comeram o fígado; esvaziaram-se os baldes das Bélides; até tu, Sisifo, sentaste em tua pedra!
Foi então que, pela primeira vez, as lágrimas umedeceram a face de Eumênide, e nem ela nem Plutão puderam negar o pedido ao suplicante. Chamam Eurydice. Ela estava entre as sombras recentes, ingressou com o passo tardio pela ferida. Orfeu recebe-a junto com uma ordem: que não olhe para trás até que saia dos vales Avernos ou terá cancelado o presente concedido.
Sobem em silêncio por um caminho íngrime, árduo, obscuro, cheio de pedras opacas. Não faltava muito para chegarem à terra e ele, com medo de ter sido enganado, temoroso e ávido por viver, volta os olhos e imediatamente ela desvanece. Estendendo os braços, certo de abraçar e ser abraçado, o infeliz nada abraça senão sombras que se desfazem.
E já morrendo por uma segunda vez, não há qualquer reclamação da cônjuje (pois quem se queixaria de ser amada?) e ela diz um último "adeus" que muito fraco chega aos ouvidos de Orfeu, e ela volta para o mesmo lugar.
Tradução do livro Metamorfoses, de Ovídio, capítulo X, versos 1-63, por Alessandro Pereira Rodrigues (Graduado em Letras - Português/Latim pela UFRGS 2011 e atualmente Graduando em Letras - Português/Grego pela mesma universidade)
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