CATÁFORA
A catáfora é a referência que fazemos a algo que ainda vamos dizer no texto. O trecho abaixo, do livro Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, ilustra a referência catafórica:
"[...] Começou então a fazer a cada um um sermão, em que se mostrava muito sentido por ter sido obrigado a chegar àquele excesso, e que terminava sempre por esta pergunta:
- Então você em que se ocupa? [...]"
A palavra "esta" faz referência à palavra pergunta, e a palavra "pergunta", por sua vez, nos remete a uma indagação que ainda será feita no texto. Outras formas muito comuns para referências catafóricas são as palavras este, esta, isto, neste, nesta, nisto, e seus plurais. Os enunciados abaixo exemplificam o uso da catáfora:
a) Após ler as regras de crase, Jõao chegou a esta conclusão: "É um assunto complicado".
b) Nosso problema é este: a desigualdade social.
c) João andou léguas pensando nisto: se ganhar na loteria, nunca mais trabalhará.
Nos três enunciados acima, as palavras em negrito apontam para algo que será dito no texto, por isso, são referências catafóricas.
ATENÇÃO
Além de apontar para baixo, no texto, a catáfora também pode apontar para a esquerda, para o trecho ou ideia imediatamente anterior, como ilustra o este exemplo de Simões Lopes Neto, no conto "No manantial":
"[...]
Mas, perto da pomba andava rondando o gavião. Na restinguinha, obra de um quarto de légua pra lá do Mariano, morava um tal de Chico Triste, que tinha filhos como rato, e o mais veho era já homem feito.
Este, que pro caso chamava-se Chicão, andava mui enrabichado pela Maria Altina. [...]"
A palavra "este", embora seja utilizada em referências catafóricas, aqui aponta para trás, não para algo que está muito acima no texto (o que representaria uma anáfora), mas para o que está imediatamente atrás, aqui, o trecho sublinhado. O uso da forma "esse" não seria de todo equivocado, mas traria uma certa imprecisão ao texto, pois poderia apontar tanto para o trecho sublinhado como para Chico Triste, Mariano ou mesmo para o gavião. O uso do vocábulo "este" traz uma precisão incrível ao texto, pois delimita exatamente sobre o que se está falando.
O CONTEXTO SITUACIONAL
Vejamos este trecho do livro Canudos, de Euclides da Cunha:
"[...] Canudos não se rendeu
Fechemos este livro. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.
Forremo-nos à tarefa de descrever seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la, vaciante e sem brilhos. [...]"
A palavra "este" refere-se ao próprio livro Os sertões. A palavra "esta" pode ser interpretada como uma referência dupla, tanto à página que Euclides escrevia e que encerrava seu livro, como também à "página da história", o desfecho da guerra de Canudos, que se descortinava ao olhos do jornalista.
Outro exemplo:
Em 1968 a ditadura baixou o AI5. Este, dissolvia o congresso, eliminava as eleições e aumentava a repressão. Nesse ano ocorreram muitos protestos.
A palavra "este" refere-se ao elemento imediatamente anterior, ou seja, ao AI5. Já a palavra "nesse" refere-se ao ano de 1968, sendo um bom exemplo de anáfora, pois aponta para algo que está bem antes no texto.
Os últimos exemplos:
Os alunos estudaram muito para a prova do ENEM neste ano.
("neste" refere-se ao ano em que estamos. Para utilizar a forma anafórica "nesse", teríamos que especificar o ano de que estamos falando - e que não seja o ano corrente)
Nesta aula, estuda-se muito.
("Nesta" refere-se à aula em que estamos)
(Dica do professor Alessandro Rodrigues, licenciado em Letras -
Português e Latim - pela UFRGS, Licenciando em Letras - Português e
Grego - pela UFRGS, mestrando em Literatura Portuguesa e Literaturas
Luso-africanas pela UFRGS)

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