terça-feira, 22 de outubro de 2013

Orfeu desce ao Tártaro


     Daí pelos ares, Himeneu, vestido em trajes amarelos, voa para a Cicônia, onde alguém chama-se Orfeu.
     Himeneu esteve presente, mas não levou nem palavras solenes, nem um rosto alegre, nem um bom presságio. Até a tocha que segurava tinha uma fumaça lacrimosa e nenhum sopro reavivava as chamas.
     A saída foi mais grave do que o presságio: a jovem noiva, enquanto vagava pelas ervas, acompanhada pelas Náiades, morreu ao receber no calcanhar o dente de uma serpente.
     Depois que o poeta Orfeu chorou aos céus o quanto pode, ousou descer às sombras, à porta do tenebroso rio Estíge e, por povos desconhecidos e imagens reunidas no sepulcro, vai até Perséfone, a rainha que tem o domínio das sombras. E, tocando as cordas ao ritmo das palavras, disse assim:
     Ó deuses postos sob a terra, até os quais caímos - quem quer que seja mortal! Se é permitido deixar as mentiras de lado e permitis falar a verdade: não vim aqui para ver o Tártaro opaco, nem pelas vilosidades de Medusa, nem para vencer a tríplice garganta do monstro. A causa da jornada é a esposa, à qual uma cobra pisoteada infundiu veneno, tolhendo-lhe os anos vindouros. Nem nego que tentei suportar, mas venceu o Amor. Este deus é bem conhecido lá em cima, duvido que não o seja aqui. Se não é mentira a história do antigo rapto, o Amor também juntou-vos.
     Eu, por estes lugares cheios de medo, por este caos imenso e vasto reino de silêncio, peço por Eurydice, retecei-lhe os fados. Tudo vos devemos, com uma certa demora, mais cedo ou mais tarde caminhamos para uma só casa, todos iremos para cá. Esta é a última morada. Vós tendes o reino eterno do gênero humano. Ela também, quando madura, perfizer os justos anos, será vossa por direito. Peço pelo uso apenas. E se os fados negam o pedido pela esposa, não quereis devolver-me: alegrai-vos com os dois.
     Dizendo tais coisas, acompanhado pela lira, choravam as almas sem sangue: Tântalo não buscou a onda fugaz; a roda de Íxion parou; os abutres não comeram o fígado; esvaziaram-se os baldes das Bélides; até tu, Sisifo, sentaste em tua pedra!
     Foi então que, pela primeira vez, as lágrimas umedeceram a face de Eumênide, e nem ela nem Plutão puderam negar o pedido ao suplicante. Chamam Eurydice. Ela estava entre as sombras recentes, ingressou com o passo tardio pela ferida. Orfeu recebe-a junto com uma ordem:  que não olhe para trás até que saia dos vales Avernos ou terá cancelado o presente concedido.
     Sobem em silêncio por um caminho íngrime, árduo, obscuro, cheio de pedras opacas. Não faltava muito para chegarem à terra e ele, com medo de ter sido enganado, temoroso e ávido por viver, volta os olhos e imediatamente ela desvanece. Estendendo os braços, certo de abraçar e ser abraçado, o infeliz nada abraça senão sombras que se desfazem.
     E já morrendo por uma segunda vez, não há qualquer reclamação da cônjuje (pois quem se queixaria de ser amada?) e ela diz um último "adeus" que muito fraco chega aos ouvidos de Orfeu, e ela volta para o mesmo lugar.

Tradução do livro Metamorfoses, de Ovídio, capítulo X, versos 1-63, por Alessandro Pereira Rodrigues (Graduado em Letras - Português/Latim pela UFRGS 2011 e atualmente Graduando em Letras - Português/Grego pela mesma universidade)

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