segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A festa da Democracia


    



     Dia de manifestação contra os governos Temer-Sartori. Uma manifestação plural, democrática, repleta de organizações sindicais, professores, estudantes, pessoas de todas as esferas sociais unidas por um só clamor: o fim dos governos corruptos e propinocráticos.
     Era uma sexta-feira, no centro de Porto Alegre, na “esquina democrática” - não poderia haver local mais adequado. Cheguei e integrei-me à multidão. No carro de som, discursos e palavras de ordem, jograis e alternância de palestrantes. Na multidão, caras, rostos, formas e cores variadas, embora fosse predominante o vermelho. Levei minha flâmula auriverde do Brasil Imperial, atrelada a um mastro improvisado na bicicleta. Ganhei adesivos de Fora Sartori e Fora Temer. Assisti às falas enquanto algumas pessoas me abordavam perguntando o que era aquela bandeira, o que significava. Encontrei dois monarquistas convictos, um deles professor de história, o outro, conhecedor do parlamentarismo monárquico desde Cunha Bueno e do plebiscito de 1993.
     Parecia tudo belo até que partimos em caminhada, descendo a av. Borges em direção à av. Júlio de Castilhos. No caminho fui abordado por um militante que mostrou seu horror à bandeira que eu levava, ameaçou-me e fez intimações severas a que eu me retirasse dali. Mas aquela não era uma manifestação democrática, sem uma liderança central, uma manifestação plural? Afastei-me para outro lado da passeata. Em vão. O indivíduo, com óculos espelhado estiloso e armação dourada, cabelo crespo em estilo semi-blackpower (ou antes um blackpower em crescimento), refez suas ameaças, e pediu ajuda a militantes mascarados. Retirei-me para a parte traseira da multidão, e enquanto caminhava em sentido contrário aos manifestantes, eis que senti um puxão. Era um mascarado que agarrava o pavilhão imperial enquanto outro derrubava a bicicleta lançando-me ao chão. E ali, no solo desta cidade, certo de um linchamento sumário, recebi mais uma chuva de ameaças e impropérios do militante (que muito se assemelhava ao personagem “Patropi”) e seus comparsas mascarados. Quanto a mim, apenas perguntava-lhes por que me agrediam e que democracia era aquela que eles defendiam e que usava a violência ao invés da razão. Por sorte algumas almas benévolas e menos afetadas pelo fanatismo vieram em meu socorro e uma delas me disse “-Sai daqui, estamos te protegendo”. Rendo aqui gratidão a esses anjos da razão que nadavam num mar de fanatismo.
     Assim fui expulso daquela manifestação em que se pregava a democracia, a pluralidade e a razão por pessoas que aplicavam a violência a unidade ideológica e o fanatismo como seus elementos de persuasão, uma persuasão que, na falta de argumentos, precisa elevar a voz para impor suas ideias. Concluí que muitos dos que pregam a democracia não nenhum pouco democráticos. Que Deus tenha misericórdia do nosso Brasil.

Um brasileiro