sexta-feira, 25 de outubro de 2013


        Alone                                                    Sozinho

From childhood's hour I have not been      Eu não fui, pela minha infância afora,
As others were; I have not seen                 Como os outros foram; eu não vi outrora
As others saw; I could not bring                 Como os outros viram; e eu não pude ainda,
My passions from a common spring.          colher minhas paixões numa primavera linda.
From the same source I have not taken    Da mesma fonte eu não pude retirar,
My sorrow; I could not awaken                  Minha dor; Eu não pude despertar
My heart to joy at the same tone;              Meu coração para a alegria pelo mesmo caminho;
And all I loved, I loved alone.                      E tudo o que eu amei, eu amei sozinho.
Then- in my childhood, in the dawn            Então, na minha infância, na alvorada
Of a most stormy life- was drawn              De uma vida turbulenta foi pintada
From every depth of good and ill               com cada nuance do mal e do bem
The mystery which binds me still:              O mistério que ainda hoje me mantém.
From the torrent, or the fountain,              Desde a torrente ou da fonte,
From the red cliff of the mountain,            Desde o rubro pico de um monte,
From the sun that round me rolled            A partir do sol que se eleva e circudeia
In its autumn tint of gold,                           Em sua áurea tinta outonal que incendeia,
From the lightning in the sky                      A partir do raio no céu azulado
As it passed me flying by,                            Enquanto ele passa voando ao meu lado,
From the thunder and the storm,               A partir do trovão e do temporal
And the cloud that took the form                E da nuvem que se transforma, afinal,
(When the rest of Heaven was blue)          (Enquanto o restante do céu resplandecia)
Of a demon in my view.                               Num demônio que ao meu olhar aparecia.

Edgar Allan Poe, traduzido por Alessandro Pereira Rodrigues, aos 25 de Outubro de 2013

A criação do mundo


     Antes do mar e das terras e do céu que cobre a todos, a natureza tinha um só rosto em toda a terra, com o nome de Caos, rude e indigesta massa, consistente apenas num peso inerte: as sementes das coisas ainda não estavam separadas. Até aqui, nehum Titã provia luz ao mundo, nem Febo renovava com suas pontas novas crecendo, nem a terra - livre do seu peso - pendia no ar circunfuso, nem Anfitrite estendia com seu longo braço pelo orbe. De tal modo estavam o céu, o mar e a terra, que esta era instável, esse inavegável, aquele carecia de luz: nada mantinha sua forma. Um obstava ao outro pois, em um só corpo, o frio lutava com o quente, o úmido com o seco, o mole com o duro, o leve com o pesado.
    Deus a isso deu uma natureza melhor, pois separou das terras o céu e o mar. E segregou do ar espesso as chuvas. No lugar do desacordo, uniu com a paz da concórdia. Colocou o fogo sem pesso no alto do céu e fez para si um lugar nas alturas. Proximo a ele está o ar e, mais denso do que este, a terra, que atrai os elementos maiores e foi pressionada pelo seu peso. A umidade flui ao redor da sólida terra oprimindo-a.
    Quando as coisas estavam assim dispostas (quem quer que tenha sido aquele deus), cortou o grão-corpo e juntou a terra partida em membros, inicialmente, para que nenhuma parte do todo fosse desigual. Aglomerou a forma num grande orbe e fez então que o mar se esparzisse, insuflou os rápidos ventos circundando os litorais de ambas as terras. Adicionou fontes, pântanos imensos, lagos e rios, os quais, por declives e em diversos lugares, cinge uma oblíqua margem, sendo às vezes engolidos por elas. Uma parte dos rios chega ao mar, outra parte é recebida pelos ampos. Outra ainda, com águas mais livres, bate nos litorais ao invés de margens. Mandou estender campos, cavar vales, enramar selvas, erguer montes rochosos.
     Assim como duas zonas cortam o céu, à direita e à esquerda, uma quinta é mais ardente. Assim a providência dividiu em igual número o globo. Muitas praias povoam a terra, das quais uma está no meio: não é habitável por causa do calor. Alta neve cobre duas. E entre uma e outra, colocou uma zona moderada, dando uma flama misturada ao frio. Fica iminente a essas partes o ar que é mais leve que a água e a terra, mas um pouco mais pesado que o fogo. Mandou ficar aí as névoas, as nuvens e os trovões que aterrorizam as mentes humanas, além dos ventos e dos raios.
   

Tradução do livro As Metamorfoses, de Ovídio, Livro I, versos 5-51, por Alessandro Pereira Rodrigues (Graduado em Letras - Português/Latim pela UFRGS e graduando em Letras Português/Grego pela mesma universidade).

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Orfeu desce ao Tártaro


     Daí pelos ares, Himeneu, vestido em trajes amarelos, voa para a Cicônia, onde alguém chama-se Orfeu.
     Himeneu esteve presente, mas não levou nem palavras solenes, nem um rosto alegre, nem um bom presságio. Até a tocha que segurava tinha uma fumaça lacrimosa e nenhum sopro reavivava as chamas.
     A saída foi mais grave do que o presságio: a jovem noiva, enquanto vagava pelas ervas, acompanhada pelas Náiades, morreu ao receber no calcanhar o dente de uma serpente.
     Depois que o poeta Orfeu chorou aos céus o quanto pode, ousou descer às sombras, à porta do tenebroso rio Estíge e, por povos desconhecidos e imagens reunidas no sepulcro, vai até Perséfone, a rainha que tem o domínio das sombras. E, tocando as cordas ao ritmo das palavras, disse assim:
     Ó deuses postos sob a terra, até os quais caímos - quem quer que seja mortal! Se é permitido deixar as mentiras de lado e permitis falar a verdade: não vim aqui para ver o Tártaro opaco, nem pelas vilosidades de Medusa, nem para vencer a tríplice garganta do monstro. A causa da jornada é a esposa, à qual uma cobra pisoteada infundiu veneno, tolhendo-lhe os anos vindouros. Nem nego que tentei suportar, mas venceu o Amor. Este deus é bem conhecido lá em cima, duvido que não o seja aqui. Se não é mentira a história do antigo rapto, o Amor também juntou-vos.
     Eu, por estes lugares cheios de medo, por este caos imenso e vasto reino de silêncio, peço por Eurydice, retecei-lhe os fados. Tudo vos devemos, com uma certa demora, mais cedo ou mais tarde caminhamos para uma só casa, todos iremos para cá. Esta é a última morada. Vós tendes o reino eterno do gênero humano. Ela também, quando madura, perfizer os justos anos, será vossa por direito. Peço pelo uso apenas. E se os fados negam o pedido pela esposa, não quereis devolver-me: alegrai-vos com os dois.
     Dizendo tais coisas, acompanhado pela lira, choravam as almas sem sangue: Tântalo não buscou a onda fugaz; a roda de Íxion parou; os abutres não comeram o fígado; esvaziaram-se os baldes das Bélides; até tu, Sisifo, sentaste em tua pedra!
     Foi então que, pela primeira vez, as lágrimas umedeceram a face de Eumênide, e nem ela nem Plutão puderam negar o pedido ao suplicante. Chamam Eurydice. Ela estava entre as sombras recentes, ingressou com o passo tardio pela ferida. Orfeu recebe-a junto com uma ordem:  que não olhe para trás até que saia dos vales Avernos ou terá cancelado o presente concedido.
     Sobem em silêncio por um caminho íngrime, árduo, obscuro, cheio de pedras opacas. Não faltava muito para chegarem à terra e ele, com medo de ter sido enganado, temoroso e ávido por viver, volta os olhos e imediatamente ela desvanece. Estendendo os braços, certo de abraçar e ser abraçado, o infeliz nada abraça senão sombras que se desfazem.
     E já morrendo por uma segunda vez, não há qualquer reclamação da cônjuje (pois quem se queixaria de ser amada?) e ela diz um último "adeus" que muito fraco chega aos ouvidos de Orfeu, e ela volta para o mesmo lugar.

Tradução do livro Metamorfoses, de Ovídio, capítulo X, versos 1-63, por Alessandro Pereira Rodrigues (Graduado em Letras - Português/Latim pela UFRGS 2011 e atualmente Graduando em Letras - Português/Grego pela mesma universidade)